segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Alissa

Eu conheci Alissa há dois anos. E desde aquele dia eu passei a saber o que a música realmente é. Foi sentado no auditório da escola que eu encontrei a inspiração para cada ato que ficou registrado na minha vasta memória. Me lembro muito bem da situação; uma coisa dessas simplesmente não é esquecida com o passar dos anos. Era mais um dia comum de aula, meus amigos usavam o tempo livre estudando para a prova de inglês que aconteceria no próximo dia, enquanto eu vagabundava  pela escola (uma das vantagens de ter memória fotográfica é que você nunca precisa revisar verbo modal). Quando eu estava passando pelo auditório, ouvi alguém lá dentro, falando como se  interpretasse alguma  personagem de alguma peça. A curiosidade  venceu e eu entrei, cauteloso para não atrapalhar qualquer coisa.
—Não, meu caro senhor, essas peças não estão à venda. Pois como poderia eu abrir mão de tamanha relíquia e tesouro inestimável? Como poderia eu me desfazer das recordações que possuo de minha amada? Raras recordações! Já não me serve  mais o tempo para curar as feridas que foram abertas desde que a perdi! Já não me servem mais os lírios do campo para se lhes comparar a beleza tão imensurável! Ah, os dias se vão e em dores se parte meu coração! E eis que chegaram os dias em que digo: não tenho neles prazer; e eis que as forças se esvaem de meu corpo e desfalece em pesar a minha alma! Já não a vejo, mas vejo a essas peças que o senhor retém em suas mãos. E se as deixo de ter, como poderei eu suportar? Não, meu caro senhor, desse par não me aparto, pois se assim feito, aqui faço uso das verdades ditas por Heathcliff: “é indescritível a dor que sinto! Como posso viver sem minha vida? Como posso viver sem minha alma?”. E, meu senhor, já se fazem muitos os anos desde que minha amada esteve ao meu lado, mas são a esses pedaços, que reténs em mãos, que me apego. Por isso, vá; deixe me ficar com minha alma. Vá, senhor, e encontre a sua própria alma sem a qual não viveríeis.
Naquele instante eu já estava absorvido pela intensidade das palavras proferidas, e mais absorvido ainda pela criatura que as proferia. Ela era incrível e magnífica, sua beleza não era possível comparar com  nenhuma das outras garotas que eu havia conhecido. Seus traços pareciam ser definidos por pincéis, e sua cor provinha de tinta óleo. A paixão ardia enquanto falava aquelas linhas. Foi inacreditável a frase cliché que veio a minha cabeça naquele instante, inacreditável por eu não usar clichés e muito menos acreditar naquele em particular. Mas não tinha como negar, foi amor à primeira vista, sim.
E foi daquele jeito, no mesmo estado de choque que permaneci por alguns minutos, enquanto a garota procurava por outra fala num livro que tinha em mãos. Mas não demorou muito pra eu ser vencido por um impulso incontrolável de ir conhecer a menina. Então eu me dirigi até a terceira fileira do auditório  e me sentei. Durante meu percurso, a garota, mesmo ciente da minha presença, não interrompeu seus discursos, indo desde aquele primeiro desconhecido, passando por cartas de amor de grandes pensadores como Voltaire e Lord Byron, terminando no clássico Orgulho e Preconceito: “ ‘se irás me agradecer’, ele respondeu, ‘deixe que o faça por si mesma e mais ninguém. Que o desejo de conceder felicidade a ti possa acrescentar força aos outros incentivos que me motivam, não devo tentar negar. Mas sua família não me deve nada. Mesmo respeitando-os, creio que pensei somente em ti’. Elizabeth estava envergonhada demais para dizer algo. Depois de uma curta pausa, sua companhia acrescentou, ‘ És muito generosa para zangar-se comigo. Se seus sentimentos ainda são os mesmos que eram abril passado, diga-me de uma vez por todas. Minhas afeições e desejos permanecem imutáveis, mas apenas uma palavra sua me silenciará nesse assunto para sempre’ ”
Então a garota veio até a mim e perguntou como era que a sociedade moderna deixara morrer tamanha paixão nas palavras. Foi ali, no auditório da escola, num dia que tinha começado como qualquer outro dia que eu pude olhar dentro do mais belo coração que já existiu. Foi onde eu conheci Alissa, a inspiração para cada ato que fica registrado na minha vasta memória. Nós ficamos lá sentados e conversando sobre os grandes textos já escritos, a cultura perdida durante anos, os sentimentos que resultaram nas maiores obras do teatro e literatura. E a cada minuto, eu ficava ainda mais impressionado pela espontaneidade de Alissa.
Ela me ensinou a ver o mundo da sua forma, com compaixão e interesse em fazer diferença. Ela me ensinou a enxergar a verdade por detrás de palavras, me ensinou a música que se encontrava em cada parte de cada coisa. Ela me mostrou a música e me ensinou a cantá-la.
Os oito meses que se sucedeu desde aquele dia no auditório foram os mais felizes de toda a minha vida. Alissa e eu começamos a namorar dois meses depois daquela manhã e sempre que estávamos juntos, tudo ao redor cantava junto com a melodia que tocava em nossos corações. Ela era minha melhor amiga, confidente e companheira. Ela era a pessoa mais alegre que eu já havia conhecido, e o ar a sua volta emanava felicidade. Era perto dela que eu me sentia eu mesmo, era ao seu redor que eu era livre pra sentir aquilo que se deve sentir.
E foi numa tentativa de furto que terminou num trágico acidente foi que eu  perdi Alissa. O mais trágico crime de todos, o que me tirou o chão, que fez meu mundo cair e o ar fugir dos meus pulmões. Dois homens encapuzados haviam invadido a casa dos pais de Alissa para roubar jóias e bens da família. Ao perceber o movimento, o pai de Alissa acionou a polícia, mas os criminosos os mantiveram como reféns, e recusando o rendimento, eles assassinaram o pai, a mãe e Alissa, à facadas.
Hoje, mesmo depois de um ano e quatro meses desde aquela noite horrível, eu não posso deixar de ver a beleza nas coisas que Alissa me ensinou a ver. Eu não posso deixar de acreditar nas pessoas, mesmo depois de que a minha confiança nas pessoas foi traída. Eu não posso deixar de ter fé em mim mesmo. Fé de que eu posso fazer diferença na vida de alguém da mesma forma que Alissa fez diferença na minha vida. Talvez não da mesma forma que Alissa fez, porque ela me trouxe luz e vida, mas impactar as pessoas que vivem ao meu redor. Pois de uma coisa eu tenho certeza: se aqueles homens  pensassem  como Alissa pensava, ela ainda estaria comigo. Se mais pessoas por aí pensassem como Alissa, e vissem a música e cantassem junto, a minha inspiração estaria aqui, compondo a mais bela canção.
Uma das vantagens de ter memória fotográfica, é que você não esquece de algumas coisas que poderiam escapar da suas lembranças  por acidente. E é por isso que ainda vivo, porque Alissa ainda vive em mim, gravada  pra sempre nas minhas memórias. As mais lindas memórias!

“Não, meu caro senhor, essas peças não estão à venda. Pois como poderia eu abrir mão de tamanha relíquia e tesouro inestimável? Como poderia eu me desfazer das recordações que possuo de minha amada? Raras recordações! Já não me serve mais o tempo para curar as feridas que foram abertas desde que a perdi! Já não me servem mais os lírios do campo para se lhes comparar a beleza tão imensurável!”


“...é [meu amor] que me mantém [vivo]. Se todo o resto perecesse e [ela] ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e [ela] fosse aniquilada, o universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer.”
Miss Cathy Earnshaw

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